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domingo, 14 de abril de 2013

XI ENCONTRO INTERNACIONAL DAS ENS - BRASÍLIA/DF - O CASAL E A FAMÍLIA NA ILHA MAURÍCIA HOJE - PASCALE E GÉRARD GOUGES




Qual é a situação do casal hoje? E da família? E do casal na Ilha Maurícia, pequena ilha do
hemisfério sul, longe das grandes capitais? E de nós, casal há quase 20 anos?
Estas interrogações habitam-nos há quase cinco meses, desde que a Equipa Responsável
Internacional nos pediu que partilhássemos convosco a vivênciado casal e da família na Ilha Maurícia hoje. Pediu-nos sobretudo, e procuraremos respeitar esse pedido, que falássemos da nossa família, das nossas alegrias, das nossas dificuldades, mas também dos desafios que enfrentamos.

Para bem definir o casal e a família mauriciana, optámos por abordar três aspectos
importantes para vos ajudar a conhecer melhor as nossas realidades:
(1) A Ilha Maurícia e as suas realidades
(2) O lugar da Igreja na Ilha Maurícia
(3) O nosso casal — a sua história e a sua caminhada.

(1) A Ilha Maurícia e as suas realidades

A Ilha Maurícia é uma pequena ilha de 1,3 milhões de habitantes situada a este de
Madagáscar no Oceano Índico. A composição da população mauriciana é hoje o reflexo de 400 anos de história. Compreende três grupos étnicos chamados «comunidades»:
os hindus, largamente maioritários, são mais de 52%, os muçulmanos (16%), os 
sino- mauricianos (3%), maioritariamente cristãos, vindos da China, e a população geral (29%), também cristã, que reúne o resto da população, isto é, essencialmente descendentes dos colonos franceses e os crioulos provenientes do cruzamento entre os colonos e os escravos negros importados de África e de Madagáscar.

Nós somos ambos fruto dessa história. Os antepassados do Gérard são, pelo lado materno, comerciantes vindos da Índia e, pelo lado paterno, franceses. O meu nome de solteira parece ser italiano, mas muitas vezes tomaram-nos, às minhas irmãs, ao meu irmão e a mim, por asiáticos por causa dos olhos oblíquos... Não podemos explicar tudo porque somos... mauricianos, provenientes de uma urdidura de culturas.Se a Ilha Maurícia, país multicultural, soube preservar ao longo do tempo unidade e coesão,cada um mantém-se bem ancorado na sua cultura e nas suas crenças.Ambos crescemos em famílias católicas praticantes e frequentámos colégios católicos. Estas instituições, na Ilha Maurícia, acolhem jovens de todas as religiões e de todas as culturas. Cruzámo-nos e vivemos mesmo tempos fortes de amizade com jovens de outras culturas. Ainda que a nossa porta estivesse sempre aberta para eles, cada um evoluiu segundo as suas crenças e os seus costumes de origem, e perdemo-nos de vista com o passar do tempo.

Hoje, os nossos filhos também têm amigos de todas as comunidades. Larissa é a melhor amiga de Megan, a nossa filha mais velha. É uma jovem hindu cuja família está muito arraigada aos costumes e tradições religiosos. Sempre encorajámos esta amizade, que dura há vários anos.

Hoje, mais do que ontem, celebram-se casamentos inter-religiosos. Em 2010, em 12% dos casais que se casaram na Igreja um dos cônjuges não era católico. O casamento misto é uma extraordinária escola de escuta e de respeito, de tolerância para com o outro e de abertura, que nos interpela. Queremos hoje acolher estes casamentos como um símbolo e um sinal do que podemos fazer com todas as nossas diferentes tradições religiosas.
Embora estes casamentos tenham em si estes símbolos, infelizmente são também fonte de muitos conflitos e de sofrimento.

Outra realidade da Ilha Maurícia é o seu desenvolvimento económico dos últimos trinta anos, que, certamente, nos abriu caminhos de progresso mas que também criou dificuldades aos casais e às famílias. Uma em cada duas mauricianas trabalha. Com a sofisticação do nível de vida, as mauricianas aspiram cada vez mais a realizarem-se numa profissão e a tornarem-se financeiramente independentes. Estas aspirações, perfeitamente legítimas, não deixam infelizmente de ter consequências. Os casais têm pouco tempo para dialogar.
Muitas vezes, o filho já não tem a sua dose de afecto e de segurança. A família tende a tornar-se lugar de passagem. E cada vez mais família se desfazem. Segundo as estatísticas dos últimos 10 - 15 anos, nota-se que os pedidos de divórcio provêm mais das mulheres do que dos homens.A família mauriciana sofre outra forma de ameaça: os malefícios da sociedade de consumo. Facilidades de crédito, uma publicidade cada vez mais agressiva, a proliferação de lojas e de grandes superfícies, têm como resultado impelir as famílias ao consumo de bens nem sempre indispensáveis. Para responder às necessidades dos filhos, muitos deixam-se tentar e vivem acima das suas possibilidades. O jogo a dinheiro ocupa por vezes um lugar importante.

Fracos rendimentos mensais são também um sofrimento para muitas famílias mauricianas.

O desemprego afecta 8,2% da população. Esta situação gera problemas sociais como o alcoolismo, a droga e a violência. As famílias são as primeiras vítimas. As dificuldades financeiras conduzem, além disso, à promiscuidade, vivendo várias famílias sob um mesmo tecto. Situações que aumentam o risco de violência.
Estes diferentes factores explicam o número crescente de divórcios hoje na Ilha Maurícia.
Nos últimos sete anos, o divórcio aumentou 28%, passando de 1 489 em 2004 para 2 074 em 2010. Por outro lado, o número de casamentos civis baixou 7%: de 11 124 realizados em 2004 para 10 360 em 2010. A taxa de divórcios é hoje estatisticamente duas vezes mais elevada do que há dez anos.

(2) A Igreja Católica na Ilha Maurícia

Mons. Jean Margéot, nomeado cardeal em 1988 e já falecido, foi para a Ilha Maurícia um grande visionário. Foi ele que, no início dos anos 60, viu a necessidade de as famílias serem enquadradas e apoiadas. Lançou então vários movimentos de casais, entre os quais as ENS em Outubro de 1953 e a Action Familiale em 1963.

Em 1989, o cardeal dedicaou a sua carta pastoral à família. Nessa carta, intitulada “Face aos choques da modernidade, edificar a família sobre a rocha”, convidava as famílias católicas a apoiarem-se no «projecto de Deus para a Salvação da Família». Mons. Maurice Piat, o nosso actual bispo, também se empenhou sempre no desenvolvimento e no desabrochar da família mauriciana. Em 1994, Ano Internacional da Família, Mons. Piat dedicou a sua carta pastoral à «Vocação da família». Nesta carta, pedia-nos que tomássemos «consciência do papel essencial que somos chamados a desempenhar na vida das pessoas e no funcionamento harmonioso da sociedade...». Enumerava as dificuldades e os sofrimentos com que as famílias se confrontam. Fazia-nos tomar consciência de que «...levamos os nossos tesouros em vasos de barro». Sim, o amor é frágil, mas somos convidados a alimentá-lo, a cuidar dele.Quando tomámos conhecimento desta mensagem, estávamos casados havia dois anos e não tínhamos filhos. Pascale era assistente de bordo, pelo que viajávamos muito e vivíamos na nossa pequena nuvem. Caminhávamos em equipa havia dois anos. Esta carta interpelou-nos fortemente, e tomámos consciência de que o nosso amor tinha necessidade de ser alimentado para dar fruto.

Em 1997, dera lançado um sínodo diocesano. Mil e quinhentas equipas constituídas por leigos, religiosos e padres trabalharam em conjunto, durante três anos, no sentido de encontrar orientações para a renovação da Igreja na Ilha Maurícia. A seguir a este sínodo, Mons. Piat decidiu nomear Equipas de Animação Pastoral que eram chamadas a encarregar-se, em conjunto, da pastoral global de cada paróquia. Muitos dos nossos equipistas foram então chamados a fazer parte dessas EAP.

De 2008 a 2010, o bispo dirigiu-se ainda às famílias através de 3 cartas pastorais:
– A primeira, “Transmitir: um desafio de hoje”, veio trazer à luz os vários desafios queos pais enfrentavam: o desafio de transmitir valores, o desafio de transmitir a fé.

«Não basta ensinar, escreveu ele.O que toca os jovens, o que eles não esquecem, é o testemunho de vida dos mais velhos...».
–“Pais construtores de futuro” (2009) veio dar aos pais pistas para acompanharem melhor os seus filhos e orientá-los no caminho da fé.

–“Solidários com os pais” (2010) centrava-se na responsabilidade educativa dos pais. Todas estas cartas, que eram orientações de vida, vieram despertar as consciências, e é forçoso verificar que produziram os seus frutos. Surgiu então um grande movimento na Igreja. Constituíram-se nas paróquias equipas de pais para reflectirem em conjunto sobre a sua vocação. Muitos entraram nos movimentos. Os nossos filhos tinham então 7 e 14 anos. Deixámo-nos interpelar pelos escritos do nosso bispo. Tomámos mais consciência do nosso papel de pais... Para responder à nossa missão de pais, tínhamos de continuar a cuidar do nosso casal. Fizemos um fim-de-semana Caná com os nossos filhos. Esta sessão deu-nos ferramentas para comunicar melhor e veio despertar o nosso desejo de, em conjunto e em família, fazer crescer a nossa fé. Percebe-se bem o impacte da Igreja no país. Os nossos dirigentes, na sua maioria não católicos, têm sempre mostrado um grande respeito pelo nosso bispo. As cartas anuais da Quaresma são lidas por muitos não cristãos. A convivência das culturas tem permitido aos nossos compatriotas de confissão diferente apreciar o valor do enquadramento oferecido aos casais. Vão também ter com os nossos padres e os nossos leigos quando a sua vida de casal vai mal. Na nossa diocese, uma panóplia de movimentos oferece aos casais meios e ferramentas para avançarem. Estes movimentos vêm-nos de França e da África do Sul. Desde há algum tempo, o Instituto Cardeal Jean Margéot (o único instituto diocesano de formação religiosa) propõe vários itinerários, entre os quais Zezi vre zom (que quer dizer: Jesus verdadeiro homem). Este itinerário convida o homem a rever o seu lugar no seio da família.

Zezi vre zom vem despertar os pais de família, levando-os a ver as suas responsabilidades
na transmissão da fé.
«O olhar de Maria sobre a mulher mauriciana» é um itinerário para as mulheres. Estas, por sua vez, têm aqui uma plataforma para partilhar as suas realidades.

O nosso casal — a sua história / o seu lugar

Quando nos conhecemos, em 1987, o Gérard era professor num colégio de rapazes. Ele tem a paixão do desporto e passava muito tempo a treinar jovens desportistas de vários clubes. É o benjamim de três filhos. A Pascale ainda estava no colégio. É a mais velha de quatro filhos e estava muito empenhada no escutismo. Quando me falou no seu desejo de ser assistente de bordo, opus-me ... A minha mãe sempre foi dona de casa. Era ela quem nos recebia quando voltávamos da escola. Não me via a casar com uma assistente de bordo... e, no entanto,...Pelo meu lado, a minha mãe sempre trabalhou, e olhei com maus olhos essas reticências do Gérard perante a minha opção de vida. Imediatamente, percebemos bem como somo sambos portadores de histórias diferentes e que precisávamos de muito amor, de diálogo e de partilha se queríamos que o nosso casal crescesse.

Cinco anos mais tarde, casava-me com uma assistente de bordo... e depois de dois anos de casados, manifestaram-se as primeiras turbulências!!!

Andávamos à procura de ferramentas que nos ajudassem a escutar-nos melhor para avançarmos melhor. Desejávamos manter vivo o nosso sacramento do matrimónio.

Queríamos alimentar a nossa fé e, mais tarde, transmiti-la aos nossos filhos. Sentíamos a necessidade de nos encontrarmos com outros casais que vivessem as mesmas realidades
que nós. As ENS foram a nossa bóia de salvação. Constituímos, então, uma equipa, com a qual caminhamos há vinte anos.Hoje temos dois filhos. Megan, a nossa princesa, acaba de festejar os seus 16 anos e Fabien, o palhacinho da família, fará em breve 9 anos. Megan pratica dança clássica e moderna, enquanto Fabien se dedica ao futebol e à guitarra. Ambos estão empenhados no escutismo e nele vivem tempos de espiritualidade. Nós fazemos o possível por os acompanhar na sua caminhada de fé. A oração em família nem sempre é fácil, sobretudo para Megan, que é adolescente e interroga-se muito sobre a sua fé. Procuramos responder-lhes, mas o mais importante é que ela nos veja viver a nossa fé.
O Gérard é hoje Director de Recursos Humanos numa empresa do sector privado. Trabalha muito e volta tarde para casa, e eu ocupo-me dos filhos muitas vezes sozinha. Pelo meu lado, depois de ter trabalhado alguns anos como conselheira junto de adolescentes, em colégios católicos, sou agora responsável por uma organização não governamental, a Action Familiale, que se ocupa da formação e do acompanhamento dos jovens e dos casais.

Apesar das nossas diferentes responsabilidades profissionais e familiares, sempre tivemos muita alegria em servir. O evangelho que escolhemos para a celebração do nosso casamento ainda ressoa nos nossos ouvidos: «Vós sois o sal da terra...». O nosso «sim» para servir as ENS foi espontâneo, e hoje recebemos muito desta missão. Estamos convencidos de que o nosso casal cresce e se desenvolve quando vivemos a abertura aos outros. Acreditamos também que os nossos filhos só podem aprender o serviço se nos virem servir.

Também acompanhamos uma equipa de jovens casais. Caminhar com eles permite-nos reler a nossa história. Não há muito tempo, o nosso bispo dizia-nos quanto contava connosco para «o ajudarmos a realizar a sua missão...». Pensamos que despertar nestes jovens o desejo de fazer crescer o seu casal sob o olhar do Senhor faz parte desta missão.
Qualquer casal está a caminho. Nós também. Se o caminho é está semeado de obstáculos, também é ladeado de belas flores que nos detemos a admirar. Sempre fomos, e ainda somos, rodeados e apoiados por aqueles que amamos. Muitas pessoas nos ajudam a avançar neste caminho, e o Senhor está presente, e com Ele temos ainda grandes coisas a realizar...
 ①
Service Famille
- Elle et Lui, Fraternité CANA, Equipes Notre Dame, Equipe 3 Ans, Foi et
Lumière, Cours de Préparation au Mariage, le Parcours Tandem.
 ②
Marriage
Encounter, Soirées pour Fiancés, Couple for Christ.
Bibliografia:
1.
Issa Asgarally (2002), L’Ecole à Maurice: Entre multiculturalisme et interculturel.
VEI Enjeux, no. 129.
2.
Mgr. J. Margéot (1989), Face aux chocs de la modernité, fonder sa famille sur le roc.
Lettre Pastorale de Carême
3.
Mgr. M. Piat (2008),Transmettre: un défi aujourd’hui.Lettre Pastorale de Carême.
4.
Mgr. M. Piat (2009),Parents Bâtisseurs d’avenir.Lettre Pastorale de Carême.
5.
Mgr. M. Piat (2010),Solidaires avec les parents. Lettre Pastorale de Carême.
6.
Livret des Statistiques 2010 (Juillet 2011), Ministère des Finance et du
Développement Economique de l’Ile Maurice.

Artigos de jornais consultados:
1. Familles: attention danger. La Vie Catholique no. 35 – 27 août 2010
2. Mon couple, je le bâtis sur le roc. La Vie Catholique no. 39.–24 septembre 2010
3. Etre heureux dans son couple, est-ce encore possible? Le Mauricien - 5 février 2011



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